“E quanto às eleições, como é que são?”, perguntei certa vez para um dos moradores daquela terra estranha. Havia ficado curioso e acabava perguntando tudo pra todo mundo. “Elegemos cinco caras”, respondeu. “Cinco?”, surpreendi-me, perguntando alarmado. “Cinco”, ele respondeu calmo. “E somos convidados a votar em muitas, muitas das decisões”, acrescentou. Notava-se que ele estava perto de como faziam as coisas lá pela Suécia. “E como lidam com corrupção?”, questionei. Era um problema comum. “Gente corrupta aqui é catalogada. Então não são elegíveis a cargo nenhum, nem de gari”, respondeu para minha completa surpresa. Cruzei as pernas, estreitei os olhos. “E os juízes?”, quis saber. “Que é isso?”, ele perguntou surpreendendo-me de novo. “Juiz. O homem que decide se alguém é culpado”, explicou. “Não, não. Caso haja flagrante ou prova a pessoa perde uma chance, e é assim e ponto final”, esclareceu. Franzi o cenho, olhando pra ele. “Chances?”, perguntou. “É – ele respondeu sereno. – na terceira é tiro na cabeça.”
Vida Curta em Poitua II
Via Crúcis
Que foi
Ela
Que tem ela?
Tentou ir
Pra onde?
Pra longe
Por quê?
Desvalidou-se
Por quê?
Não sei
Onde está?
Distante
Que vai fazer?
Não sei
Como está?
Mal
Por quê?
É medo
De quê?
Do revertério
E passa?
Mas volta
‘cê teima?
Pra sempre
‘cê luta?
Sozinho
E agora?
Não sei
Pra onde vai?
Pra lá
Fazer o quê?
Beijar
Por quê?
Preciso
Por quê?
Meu prêmio
De quê?
De ser
De quem?
Só dela
Por quê?
É ela
Que tem?
É única
Por quê?
É impossível
De quê?
Ser tanto quanto
Quanto o quê?
Quant’ela é
Quanto é?
Demais
Tanto assim?
Demais
E ama?
Sim
Te ama?
Sim
Te quer?
Quer
Te pede?
Pede
Então vai?
Vou
Quando?
Em breve
Volta?
Volto
Quer isso?
De jeito nenhum
Então?
Preciso
É triste?
Demais
Que faz?
Amo
Quanto?
Demais
Então?
Não posso
O quê?
Deixar
O quê?
Ir
Então?
Não deixo
Deixar?
Partir
Que mais?
Preciso
De quê?
Da minha
Que tem ela?
É tudo
O quê?
Que preciso
Fábula Breve Sem Moral
“Sabe que é estranho nesses humanos?”, perguntou abanando com o rabo as moscas ao passo que mastigava pela milésima vez o capim, olhando com aquela cara morta para os carros que passavam. Na frente das duas vacas, um senhor derrubava uma árvore a machadadas. “Que?”, a outra quis saber. “A definição deles de algo ‘humano’ é algo compassivo e bondoso”, explicou. A segunda mugiu uma risada, e olhou para a primeira. “Algo ‘humano’ devia ser uma bela de uma merda.”
Vigas de metal
contra as nuvens:
bênçãos do bêbado e o
equilibrista. E, querida,
Se todos fossem iguais a você,
ia ser difícil dizer onde todos estão.
E não faz mal, amor
porque isso não é poema de amor
E nem por causa de você o meu mundo caiu.
Minha flor, meu bebê: mudaram as estações
E, imagina, quase sem querer, eu já preciso dizer que te amo
O tempo não pára, já vou dizendo adeus, batucada.
Sucedeu assim: da lanterna dos afogados
uma fascinação lá do Corcovado
e, olhos nos olhos,
onde anda você? preciso dizer que chega de saudade!
Olhos fechados, imagina a melodia sentimental;
basta um dia e eu não existo sem você.
Analgesia de Clarisse
“E chamam tentativa de suicídio de ‘tentativa de suicídio’? Mas, vem cá, isso é sucesso de sobrevivência, pode?”, couberam na boca dela todas essas ignorâncias. Mas também, que foi que deu a pedir pra a completa retardada falar de suicídio. Viste: Clarisse está trancada no banheiro. Vou começar, se me deixar ser coeso: tem muito aspirante a limítrofe nesse mundo. Não te ofenda, mas olha que você tá lá. Não se peça para ser triste, que é fácil. Muito menos vem me dizer que sei pouco, que não sei nada, que não entendo. Ah, não me diz que não entendo. Pois: Clarisse sabe que a loucura está presente. Olha, tu que já passou lendo sobre estes todos problemas e decidiu fazer a cena toda, põe-te uns analgésicos psicológicos (destes que não existem), analgesia mental; Clarisse está trancada no seu quarto. Se paro, não paro, é uma necessidade impressionante essa tua, debutante, de convencer. Está sofrendo de um efeito placebo tão, mas tão forte. Convenceu-se e quer convencer, de maneira sutil, informar, dessa tua baboseira. (E ouvir que é baboseira, que martírio, é motivo pra apontar. É comum que chamem de baboseira o teu teatro, que teatro. Você é carente. Ouve: Clarisse só tem catorze anos. E é fraca. Frágil todo mundo é, mas ou pinta-te uma cara ofensiva ou uma sensível, te prende ou aos canivetes ou às agulhas; finca ou as (alc)unhas ou os (ped)aços; compara ou os possíveis ou os falsos. Eu não vou, assim, olha que sonhar que é esse. Incompleto, estou. Vê: Clarisse nem existe. Então arranca essa síndrome de panqueroque da tua cara.





