Se sabe, se não sabe ser de alguém. Se tem uma noção vaga ou concreta do que é “pra sempre”. Se pode escrever sem parar por um momento para pensar no que está vindo. Se pode ser espontâneo sem ser improvisado. Se pode ser mentira sem ser teu. Sem ser vindo de ti. Se consegue deslizar entre os meus desgostos, e ser fria quando te quero quente, e não ver meus agrados quando estou carente, e mostrar que enquanto diz que não sabe da tua raridade, mente. Se deita e pressiona contra meu colo, teus olhos entreabertos e teu sono, você se moendo sem eu perceber, o que se passava nos teus pensamentos vagos, na sua saudade dos meus afagos. Eu quero te perguntar se é penoso o compromisso.
Aprender a ser de alguém, a chamar uma pessoa — mas uma preciosa —, de dona. Aprender a provar de teus próprios toques, a entender teus meros momentos inseguros, teus altos e teus baixos caluniosos costumes. Entender a necessidade sem conseguir se aproveitar pelo mero prazer de ter bondade para com. Compreender que de nada adianta a ausência, a presença, o afago ou o insulto se não fica, permanece, estagna junto. Junto não ali, na presença mais física e tocante que poderia haver, na menos etérea das vezes, não na região mais alta de seu cume emocional, seu momento mais frágil mas junto de seu constante pesadelo, junto de seus mais tristes e femininos, fracos instantes, junto de seus segredos presos e fedendo a maldades, junto do terror, da fobia, da repulsa pela possibilidade de, algum dia, perder.
Aprender a ter alguém, a chamar uma pessoa — mas uma rara — de tua. Aprender a pôr-te lá, junto daquela situação que mais te amedronta, a estar lá no lugar de teu querido bem vivido, de teu louvado marido. Aprender a ser mútua sem ser entregue demais. Mas seja completamente entregue. Seja demasiadamente entregue. Seja “de”, nunca “para”. Seja completamente pertencente e perdida, solta e iludida com todas as verdades que ouvir. Seja, porque vai sofrer tanto se for cruel com as palavras, se ponderar toda e qualquer coisa. Se jogue, se agarre a tudo que ouvir porque vai ser verdade se for verdade. “Com”, nunca “por”. Confiar na palavra do outro como se fosse a tua própria. E salivar com a tua boca as perversões que o outro tem. E ser dele, não pr’ele, e que isso seja, para ambos estes, livre de usura. “No”, nunca “do”. Compreender imperfeição como parte do ser, responder a qualquer pergunta com a sinceridade imaculada de um santo que nunca peca, de um bonito que jamais erra. Dizer que nada mudaria neste segundo, que nada trocaria por um dia. Nem mesmo uma semana, um mês. Que queira o bronze agora antes de querer a prata depois. Que eu, que quero você de imediato, te deseje assim até o fim.
Amém.






