28
Nov
09

Ter e Pertencer

Se sabe, se não sabe ser de alguém. Se tem uma noção vaga ou concreta do que é “pra sempre”. Se pode escrever sem parar por um momento para pensar no que está vindo. Se pode ser espontâneo sem ser improvisado. Se pode ser mentira sem ser teu. Sem ser vindo de ti. Se consegue deslizar entre os meus desgostos, e ser fria quando te quero quente, e não ver meus agrados quando estou carente, e mostrar que enquanto diz que não sabe da tua raridade, mente. Se deita e pressiona contra meu colo, teus olhos entreabertos e teu sono, você se moendo sem eu perceber, o que se passava nos teus pensamentos vagos, na sua saudade dos meus afagos. Eu quero te perguntar se é penoso o compromisso.

Aprender a ser de alguém, a chamar uma pessoa — mas uma preciosa —, de dona. Aprender a  provar de teus próprios toques, a entender teus meros momentos inseguros, teus altos e teus baixos caluniosos costumes. Entender a necessidade sem conseguir se aproveitar pelo mero prazer de ter bondade para com. Compreender que de nada adianta a ausência, a presença, o afago ou o insulto se não fica, permanece, estagna junto. Junto não ali, na presença mais física e tocante que poderia haver, na menos etérea das vezes, não na região mais alta de seu cume emocional, seu momento mais frágil mas junto de seu constante pesadelo, junto de seus mais tristes e femininos, fracos instantes, junto de seus segredos presos e fedendo a maldades, junto do terror, da fobia, da repulsa pela possibilidade de, algum dia, perder.

Aprender a ter alguém, a chamar uma pessoa — mas uma rara — de tua. Aprender a pôr-te lá, junto daquela situação que mais te amedronta, a estar lá no lugar de teu querido bem vivido, de teu louvado marido. Aprender a ser mútua sem ser entregue demais. Mas seja completamente entregue. Seja demasiadamente entregue. Seja “de”, nunca “para”. Seja completamente pertencente e perdida, solta e iludida com todas as verdades que ouvir. Seja, porque vai sofrer tanto se for cruel com as palavras, se ponderar toda e qualquer coisa. Se jogue, se agarre a tudo que ouvir porque vai ser verdade se for verdade. “Com”, nunca “por”. Confiar na palavra do outro como se fosse a tua própria. E salivar com a tua boca as perversões que o outro tem. E ser dele, não pr’ele, e que isso seja, para ambos estes, livre de usura. “No”, nunca “do”. Compreender imperfeição como parte do ser, responder a qualquer pergunta com a sinceridade imaculada de um santo que nunca peca, de um bonito que jamais erra. Dizer que nada mudaria neste segundo, que nada trocaria por um dia. Nem mesmo uma semana, um mês. Que queira o bronze agora antes de querer a prata depois. Que eu, que quero você de imediato, te deseje assim até o fim.

Amém.

28
Nov
09

Samba número 1

Pondera

Pondera

 

Pondera a possibilidade

pondera a qualidade

pondera a presença

pondera a essência

 

Pondera

Pondera

 

Pondera a tendência

pondera a clemência

pondera a ilusão

pondera a perdição

 

Pondera

Pondera

 

Pondera o sentimento

Pondera o momento

Pondera o calor

Pondera o amor

 

Pondera

Pondera

 

Pondera a inverdade

pondera a  saudade

pondera a insistência

pondera a ausência

 

Pondera

Pondera

 

Pondera o estar

pondera o voltar

pondera o querer

pondera o ter

 

Pondera

Pondera

 

E me diz

 

Se espera

Se espera

 

Se espera

Se

espera

26
Nov
09

Ravel

Tirou da água as mãos e as levou ao rosto pálido, cheio de maquiagem. Colocou-as de volta na água e repetiu o gesto, tantas e tantas vezes. “Vênus”, uma moça chamou da porta. A moça que lavava o rosto virou-se e olhou para ela. Era baixa, atarracada, as mãos gordas e o rosto ruim, azedo. “Sim?”, Vênus respondeu cheia de sorrisos, as mãos ainda trêmulas e mergulhadas na água, o rosto num pálido dividido entre o líquido, o pó de arroz e sua pele leitosa. Parada por alguns segundos, pensou em que desgraças carregava aquela senhora, que andava sempre pelos corredores do prédio com a mesma expressão vaga e triste no rosto. Secou as mãos na toalha, e levou o rosto até ela, secando e tirando de vez a maquiagem. Era ainda mais pálida que o pó. Talvez ele lhe deixasse mais morena do que branca. “Vamos abrir as cortinas em um minuto”, a mulher informou e Vênus assentiu com a cabeça, o sorriso ainda com ela. A outra se foi, fechando a porta onde uma estrela ficava. Era dourada. No centro da estrela lia-se o nome da bailarina que lá dentro estava. Ela, Vênus, sentou-se na cadeira e olhou o espelho. Os olhos nos próprios olhos, aquelas mãos tremendo até agora. Estava nervosa, como ficava todos os dias antes de ir para o palco, antes de ir para frente de todas aquelas pessoas. Olhou para baixo, os pés doíam e estavam tão trêmulos quanto as mãos. Pensou. Doía até mesmo pensar, dada a dor de cabeça que sentia. Riu. O nervosismo lhe confundia os nervos e cruzava as emoções. Tinha finalmente chegado. A semana que vem era a hora de ir a um musical no maior teatro da Inglaterra. O dinheiro seria suficiente para pagar todas as contas, seria os suficiente para resolver todos os problemas. Todos os problemas? Riu de novo. Meu Deus, todos os problemas? Buscou problemas consigo mesma, tentou dar-se problemas para se preocupar. Não achou. Tinham? Se tinham, ela sabia? Não saber era ainda pior do que tê-los. A não ciência de suas deficiências, que outrora tanto lhe ajudou, agora lhe corroía as aflições e tornava suas extremidades ainda mais trêmulas, ainda mais nervosas. Precisava saber e não sabia onde buscar o conhecimento a respeito.
“Vênus!”, a voz veio quebrando o silêncio. Essa era de um homem: alta, esganiçada. A menina se levantou no mesmo instante, os olhos pregados na porta que se abriu com estrondo. “Onde você ‘tava?”, ele perguntou se aproximando dela. As mãos dela começaram a tremer mais ainda, seu rosto se contorceu em medo e seus pés descalços foram um, dois, três passos para trás. “Aqui”, ela respondeu passiva, encolhida, quieta. Ela que sempre se garria para ele, que sempre se aprontava de enfeites e fazia pra ele o que ele queria que fosse feito. Ela que sempre doava o que era e o que não era decente para ele poder pegar. “Aqui?”, ele repetiu. Agora a voz baixa e calma. Lívido, continuou: “Aqui, sua vagabunda?” Tinha os olhos presos nela, sem medo de encará-la embora ela estivesse morrendo de medo de continuar a olhar naqueles olhos. Olhou para baixo, suas mãos batiam contra a coxa de tanto que tremiam. Ele bateu na cara dela. Vênus foi ao chão. “E por que você estava aqui, que mal lhe pergunte?”, ele quis saber com os olhos tão juntos das feições dela que até incomodaria qualquer um que estivesse vendo.
Na porta chegaram, e debruçaram-se contra o batente, outras meninas. Algumas com os rostos em deboche, contorcidos e estúpidos, como se pedissem para ele bater mais em Vênus. Muitos motivos tinham para desejar o pior para ela: algumas pelo fato dela ser a mais importante de todas as bailarinas dalí, outras porque era ela quem ganhava o nome nos cartazes, nos programas de rádio. Mas a maioria delas, dessas que debochavam, tinham inveja de estar alí, apanhando de Paulo. Queriam que antes fossem elas lá, atiradas ao chão, levando as porradas porque não estiveram onde deveriam estar. Queriam elas serem a frágil, a deficiente, a que era tão, mas tão importante para o espetáculo que chegava a apanhar se não comparecesse a ele. Queriam, mas não eram. Algumas outras olhavam com compaixão, como se quisessem poder fazê-lo parar. Não podiam, contudo. Mulher, menina, homem, velho nenhum alí dentro tinha a coragem de olhar Paulo nos olhos. Ele era extremamente alto, esguio, de voz aguda e olhos muito fundos, lembrando um par de copos velhos e escuros. Sua pose não era máscula — tampouco seus parceiros — mas não havia dentro daquele prédio alguém tão macho, tão homem quanto Paulo. “Levanta, porra”, ele mandou. Vênus obedeceu no mesmo instante, o rosto tão imponente quanto derrotado. Como tinha classe, e como a classe colocava todas as outras bailarinas no chão. Aquela capacidade de encantar os olhso de qualquer um que Vênus tinha era o que mais incomodava as outras. “Isso vai acontecer de novo, Vênus?”, Paulo perguntou começando a andar até a porta. “Vai”, ela respondeu. O homem não ficou surpreso, não pareceu afrontado. Se era aquilo que ela dizia que aconteceria, não havia nada que ele pudesse fazer. O que ele podia fazer, que era mandá-la para a porta da rua, seria o mesmo que fechar as portas e dizer que não fariam mais espetáculos. É complicado explicar o quão brilhante Vênus era.

23
Nov
09

Vida Curta em Poitua

Coloquei os dois pés dentro do açougue e logo a porta fechou-se nas minhas costas. O teto era alto, como em lugar nenhum que vendesse carne. Não havia cheiro algum, e a moça que contava as cédulas não me deu atenção. As prateleiras muito brancas estavam cheias de etiquetas amarelas com os preços de seus produtos, embora alguns levassem a inscrição “Dê preço”. As paredes estavam limpas de cartazes, anúncios, pregos ou furos. Havia uma geladeira cheia de pacotes com comida, cada um deles apenas levava os dizeres do que era ofertado. Fui até perto do balcão, onde havia um homem e uma moça, juntos, falando com o atendente. Me aproximei um pouco mais, e esperei ser atendido. “Aqui está”, o açougueiro disse entregando a caixa com carne para o homem e virando-se para mim. Quase pronto para dar meu pedido, abri a boca. O olhar do homem, contudo, me atravessava vago. “Senhora?”, ele disse em tom de convite. Olhei para trás e uma baixinha oriental mulher se adiantou. “Quero dois quilos de”, começou. Eu a interrompi. “Desculpe, mas eu cheguei primeiro”, salientei com os olhos um pouco inclinados para o lado, uma confusão barata no rosto. Ele me olhou franzindo o cenho, o rosto brando mas curioso. A mulher do caixa parou de contar as notas. “Desculpe, é uma emergência?”, ele me perguntou. Fiquei ainda mais confuso, e respondi lentamente, como quem explica algo muito óbvio. “Não. Eu apenas cheguei primeiro. Devo ser atendido primeiro”, respondi. “Não — ele respondeu para minha surpresa. — Os idosos são atendidos antes de mais ninguém. Depois as mulheres. Por fim os homens. É uma lei válida pelo país todo”, me disse e me senti embaraçado e envergonhado por um momento. Dei dois passos para trás e me encostei no congelador que alí havia. Lugar estranho.

19
Nov
09

Prosa Breve de Flerte e Conquista do Século XXI

— Oi, quer ficar comigo?

— Aham.






 



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