“Desrespeitar princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade“
Moralidade, Brasil? Preste uma visita a Assis. Talvez no tempo das cavernas – como mencionou a UNE – não esteja a UNIBAN, não estejam os moralistas, não esteja o país. Está mesmo o sistema de educação e o ser humano. A que ponto de evolução nós chegamos se, hoje em dia, o método usado por um rapaz para seduzir uma moça chega a ser mais hostil para a integridade dela do que nos tempos das cavernas: uma marretada na cabeça. Hoje em dia, que a sedução e o flerte morreram, toda mulher é barata, toda mulher é fácil? Ainda não. Quem dera tivéssemos os homens das cavernas aqui, para idolatrar as mulheres férteis, incompatíveis ao padrão de beleza, quem dera estivéssemos no tempo das cavernas, UNE, porque o moralismo não era racional, ele era natural. Quem dera fossemos animais, mas basta de derar.
Imagem: Matthias Kabel“Um fiscal foi deixado à disposição de Geisy para protegê-la em caso de uma possível agressão”
O que a UNIBAN devia deixar à disposição da aluna era a cara, para a moça estapear. Eu não estou aqui para fazê-la de coitada. Vou deixar isso a cargo de Márcias e Reginas da minha televisão brasileira e sensacionalista. De coitada ela não tem nada, tão menos tem os muitos coitados, coitados, que hostilizaram a moça porque… Por quê? Porque hoje em dia as magrelas são incomodadas, as gordas são incomodadas, as baixas são incomodadas, as altas são incomodadas. Tudo é motivo, se não de chacota, de inveja. E é normal falar que as pessoas sentem inveja. É uma desculpa usada para se justificar qualquer coisa, mas a que outro tipo de coisa você atribui isso? O moralismo é uma falta de liberdade absurda que me irrita profundamente. A necessidade que as pessoas tem que os outros se comportem como elas acham certo. Os outros.
“Eu mesmo já usei roupas muito mais escandalosas, fiz sexo com três garotas no banheiro da faculdade e nada me aconteceu”
Talvez Madonna seja mesmo a melhor pessoa para se citar no que diz respeito a moralismo. Não que – deixe-me fazer uma coisa agora que sempre quis, para zombar com saites de famosos, revistas de fofoca e colunas sociais – a material girl seja em algum momento uma estudante hostilizada, ou tenha isso em seu passado. O que cai bem aqui é que Madonna foi quem tanto abriu as pernas sem ninguém falar nada, até achar bonito. Foi vítima de moralismo, mas era bonito. E é bonito a beleza que se vê na tal da aluna da UNIBAN? É bonito. Porque se não fosse bonito, não haveria retardada alguma para gritar e fazer birra, para invejar e fazer festa. Se não fosse bonito não havia menino para chamar de gostosa, não havia criança – estou falando dos estudantes – para fazer aquele escândalo, aquela pouca vergonha em um país onde um biquine fio dental é absolutamente normal. Onde a maior festa, a mais bonita, é a da carne, nosso Carnavel. Ainda era bonito quando iam as belezas da Mangueira nos carros, ia o Samba (capital, sim senhor) à frente das mulheres. Hoje em dia vai uma vagabunda qualquer, cheia de pouca roupa e muita carne. Carnaval Marinho. O ambiente escolar nunca foi dos mais compreensivos, dos mais avançados e muito menos – muito – respeitou a individualidade de cada um. Se estudantes – olhe só, eles deviam estar sendo educados – são moralistas a ponto de hostilizar, a pergunta maior aqui é que tipo de porcaria estamos ensinando para eles.
“Opressão que as mulheres sofrem cotidianamente, ao serem consideradas mercadoria e tratadas como se estivessem sempre disponíveis para cantadas e para o sexo”
É. É exatamente nisso que se encaixa a bela porcaria que tem dentro da cabeça da juventude brasileira. Ela é puritana, reprova e se reprova. Cada um é santo no seu espaço, mas, com licença, quantos desses alunos é que se privam desse açougue enorme que o brasil – com letra minúscula, estou cansado dessa porcaria aqui – virou. É mulher e homem disposto feito carne, uns com mais outros com menos, pendurados em ganchos e rodando.
Se culpo as pessoas que quase lincharam a garota? Eu culpo. Certa vez, lendo a minha séria favorita de livros, li sobre a psicologia das turbas. Foi a primeira coisa que me veio à cabeça – depois de “Como esse Bóris é foda” – quando vi aquele gado correndo atrás do boi mais gordo do pasto, todos com olhos gordos naquela carne, no abate. Chamar de inveja é algo tão batido, algo tão comum, que eu nem vou fazer isso. Mas se alguém chega ao ponto de se incomodar tanto com tão pouco – tão pouco: uma fulana com um vestido curto -, esse alguém tem que ser ou muito pouco ou nada para consigo mesmo. E, olhe, foram muitos os fulanos.
“Embora o Brasil seja conhecido por seus trajes pequenos, principalmente em cidades litorâneas, a maioria dos estudantes se vestem modestamente no campus”
O que me motivou a escrever a respeito? O já mencionado Bóris. Meu jornalista preferido. O chute na barriga, entre os outros muitos, que ele deu na UNIBAN foi tão bonito que me vi escrevendo, pesquisando e simpatizando com a moça.
Simpatizando com a moça. Olhe, eu não acho que uma roupa curta seja algo bonito. Eu não acho que exibir seu corpo como se tivesse só aquilo a oferecer – e, convehamos, é o que tem ocorrido nesse grande mercado de prostitutas com nome de país (me deixe exagerar) – seja de qualquer maneira bom para a imagem da mulher no Brasil. Eu, tão menos, irei usar um argumento de 60 anos de que “isso não justifica”, porque o que justifica a ação dos retardados é que eles acharam a roupa da moça errada. Isso justifica, só não torna correto. O correto era que cada um cuidasse das próprias pernas, mas isto é algo que estamos tentando fazer tem muito tempo. Mas “correto” aqui não me cabe, porque estou sendo moral com os estudantes. Eles achavam correto que a moça não usasse as roupas. A história aqui é outra: a roupa é dela, bem como o corpo. Tão menos cabe a mim, tampouco aos estudantes decidir se ela estava certa. Muito menos à UNIBAN, muito menos à mídia.
Eu detesto o Fantástico. Assisto regularmente. A reportagem exibida a respeito da jovem foi ainda mais indignante, pois foi analisar se o vestido era ou não adequado.
Pare e pense.
Foi nesse momento que se abriram as pernas do moralismo. Foi quando o espectador devia ter mudado o canal ou desligado a tevê. Nesse ponto, ter ido ver um filme pornográfico teria sido de mais valia, porque é humilhante para qualquer mulher ver um completo retardado te dizendo se você pode ou não usar o seu vestido, de acordo com o comprimento deste.
Numa recente viagem de carro dentro da cidade de São Paulo, ouvi opiniões diversas e uma discussão levemente acalorada a respeito da aluna. Desconhecia todo o caso, porque me abstenho estranhamente da mídia – sem querer – e sei das coisas tarde demais. Repito, eu só estou escrevendo isso por causa do Bóris. Na ocasião, fiquei quieto. E dado o que era dito alí, se eu tivesse dito o que achava acho que tinha me arrependido. Ia me prolongar tanto…
“Eu fui a vítima. Como que eu posso ser expulsa? A vítima é expulsa da faculdade? Isso é um absurdo. Vamos ter que tomar uma atitude. Isso é inaceitável. Eu não vivo no Oriente Médio. Alguma coisa será feita”
É. É absurdo. Não ela ter sido expulsa – bom, isso também – mas ela achar que no Oriente Médio isso, de algum modo, aconteceria (ou pior). Claro que se fizesse a moça iria sofrer consequências, mas é aí que acontece a magia: não acontece. Uma mulher não mostrar o corpo, não se expor, não ser vista nem vendida, nem pesada, analisada, rotulada e medida é intolerância? Eu acho que isso é uma presença de respeito absurda, isso sim. Mulher do Oriente Médio é tida aqui, no lado “certo e democrático” do mundo como uma coitada, que é submetida e obrigada a se cobrir. Ninguém sabe que as mulheres de lá, olhando as daqui, sabem que as daqui é que estão completamente vendidas e submetidas a serem um produto, um objeto sexual. Eu vou admirar mesmo o dia que, de burca, uma mulher nesse país for admirada. Porque vai ser nesse dia que uma mulher, nesse país, vai ser admirada pelo que é, e não pelos plásticos que ostenta.
“Indicando uma postura incompatível com o ambiente. Ensejando, de forma explícita, os apelos de alunos. A atitude provocativa da aluna buscou chamar a atenção para si por conta de gestos e modos de se expressar, o que resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar. Sempre gostou de provocar os meninos. O problema não era a roupa, mas a forma de se portar, de falar, de cruzar a perna, de caminhar.”





