10
fev
10

Vida Curta em Poitua II

“E quanto às eleições, como é que são?”, perguntei certa vez para um dos moradores daquela terra estranha. Havia ficado curioso e acabava perguntando tudo pra todo mundo. “Elegemos cinco caras”, respondeu. “Cinco?”, surpreendi-me, perguntando alarmado. “Cinco”, ele respondeu calmo. “E somos convidados a votar em muitas, muitas das decisões”, acrescentou. Notava-se que ele estava perto de como faziam as coisas lá pela Suécia. “E como lidam com corrupção?”, questionei. Era um problema comum. “Gente corrupta aqui é catalogada. Então não são elegíveis a cargo nenhum, nem de gari”, respondeu para minha completa surpresa. Cruzei as pernas, estreitei os olhos. “E os juízes?”, quis saber. “Que é isso?”, ele perguntou surpreendendo-me de novo. “Juiz. O homem que decide se alguém é culpado”, explicou. “Não, não. Caso haja flagrante ou prova a pessoa perde uma chance, e é assim e ponto final”, esclareceu. Franzi o cenho, olhando pra ele. “Chances?”, perguntou. “É – ele respondeu sereno. – na terceira é tiro na cabeça.”

08
fev
10

Via Crúcis

Que foi
Ela
Que tem ela?
Tentou ir
Pra onde?
Pra longe
Por quê?
Desvalidou-se
Por quê?
Não sei
Onde está?
Distante
Que vai fazer?
Não sei

Como está?
Mal
Por quê?
É medo
De quê?
Do revertério
E passa?
Mas volta
‘cê teima?
Pra sempre
‘cê luta?
Sozinho

E agora?
Não sei
Pra onde vai?
Pra lá
Fazer o quê?
Beijar
Por quê?
Preciso
Por quê?
Meu prêmio
De quê?
De ser

De quem?
Só dela
Por quê?
É ela
Que tem?
É única
Por quê?
É impossível
De quê?
Ser tanto quanto
Quanto o quê?
Quant’ela é

Quanto é?
Demais
Tanto assim?
Demais
E ama?
Sim
Te ama?
Sim
Te quer?
Quer
Te pede?
Pede

Então vai?
Vou
Quando?
Em breve
Volta?
Volto
Quer isso?
De jeito nenhum
Então?
Preciso
É triste?
Demais

Que faz?
Amo
Quanto?
Demais
Então?
Não posso
O quê?
Deixar
O quê?
Ir
Então?
Não deixo

Deixar?
Partir
Que mais?
Preciso
De quê?
Da minha
Que tem ela?
É tudo
O quê?
Que preciso

06
fev
10

Fábula Breve Sem Moral

“Sabe que é estranho nesses humanos?”, perguntou abanando com o rabo as moscas ao passo que mastigava pela milésima vez o capim, olhando com aquela cara morta para os carros que passavam. Na frente das duas vacas, um senhor derrubava uma árvore a machadadas. “Que?”, a outra quis saber. “A definição deles de algo ‘humano’ é algo compassivo e bondoso”, explicou. A segunda mugiu uma risada, e olhou para a primeira. “Algo ‘humano’ devia ser uma bela de uma merda.”

06
fev
10

Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto

Vigas de metal
contra as nuvens:
bênçãos do bêbado e o
equilibrista. E, querida,
Se todos fossem iguais a você,
ia ser difícil dizer onde todos estão.

E não faz mal, amor
porque isso não é poema de amor
E nem por causa de você o meu mundo caiu.
Minha flor, meu bebê: mudaram as estações
E, imagina, quase sem querer, eu já preciso dizer que te amo
O tempo não pára, já vou dizendo adeus, batucada.

Sucedeu assim: da lanterna dos afogados
uma fascinação lá do Corcovado
e, olhos nos olhos,
onde anda você? preciso dizer que chega de saudade!
Olhos fechados, imagina a melodia sentimental;
basta um dia e eu não existo sem você.

06
fev
10

Analgesia de Clarisse

“E chamam tentativa de suicídio de ‘tentativa de suicídio’? Mas, vem cá, isso é sucesso de sobrevivência, pode?”, couberam na boca dela todas essas ignorâncias. Mas também, que foi que deu a pedir pra a completa retardada falar de suicídio. Viste: Clarisse está trancada no banheiro. Vou começar, se me deixar ser coeso: tem muito aspirante a limítrofe nesse mundo. Não te ofenda, mas olha que você tá lá. Não se peça para ser triste, que é fácil. Muito menos vem me dizer que sei pouco, que não sei nada, que não entendo. Ah, não me diz que não entendo. Pois: Clarisse sabe que a loucura está presente. Olha, tu que já passou lendo sobre estes todos problemas e decidiu fazer a cena toda, põe-te uns analgésicos psicológicos (destes que não existem), analgesia mental; Clarisse está trancada no seu quarto. Se paro, não paro, é uma necessidade impressionante essa tua, debutante, de convencer. Está sofrendo de um efeito placebo tão, mas tão forte. Convenceu-se e quer convencer, de maneira sutil, informar, dessa tua baboseira. (E ouvir que é baboseira, que martírio, é motivo pra apontar. É comum que chamem de baboseira o teu teatro, que teatro. Você é carente. Ouve: Clarisse só tem catorze anos. E é fraca. Frágil todo mundo é, mas ou pinta-te uma cara ofensiva ou uma sensível, te prende ou aos canivetes ou às agulhas; finca ou as (alc)unhas ou os (ped)aços; compara ou os possíveis ou os falsos. Eu não vou, assim, olha que sonhar que é esse. Incompleto, estou. Vê: Clarisse nem existe. Então arranca essa síndrome de panqueroque da tua cara.




Sobre

Supõe-se que, neste espaço, eu fale sobre mim. Das muitas opções escolhidas pelas muitas pessoas (que, sinceramente, acho que deviam ser poucas) que usam da Internet, eu poderia colocar um jargão popular, letra de música, tentativa de impressionar. Eu poderia também listar gostos, intenções, gêneros e escolas. Acabar descrevendo-me como um aspirante a estrela de panqueroque com algum distúrbio social. Então vou ficar nesses futuros do pretérito, porque eu não pretendia escrever nada mesmo.

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