15
Mai
09

Choque Térmico

A caneta Bic lhe manchava os dedos de um preto ralo, como uma faixa mal costurada em roupas baratas, desprovidas de cuidado, roídas de traças, abandonadas ao pé do armário. Levantou-se finalmente, e colocando as mãos na beirada da mesa conseguiu postar-se de pé. Todos os ossos de seu corpo produziram um estalo seco, seus olhos ainda estavam fechados e as luzes apagadas. Passos deficientes de determinação na direção da parede e as unhas fincaram-se contra as falhas da tinta para que finalmente pudesse fazer luz.

O quarto era de um ar pesado, um cheiro forte de mofo e pedaços de papel espalhados para todo lado. As paredes riscadas de preto em frases, poemas, textos, desenhos, devaneios, sorrisos de belas moças, ainda que não fossem reais. Havia um ventilador girando com um barulho irritantemente repetitivo e enferrujado no topo do lugar, e o chão de piso tão frio quanto seu sangue lhe tocava os pés num impacto tão poderoso quanto um cubo de gelo sobre a brasa. A janela estava fechada e trancada com cerca de oito cadeados, e a tábua de passar roupa continha várias marcas de queimado. Ao canto um frigobar que não funcionava e ao lado oposto da porta um quadro corroído pelo mofo acizentado e verde que destruía a pintura lentamente.

“Tina?”, chamou a voz vinda do banheiro que logo se aproximou e invadiu o quarto. A garota respirou fundo e colocou a caneta atrás da orelha, as mãos gemiam em mais estalos e os olhos se abriam lentamente. “Tina, você tá…”, começou de novo a voz grossa, de uma mulher forte e negra, os olhos preocupados e marcados de trabalho e esforço, cobertos pelos óculos cujo grau havia se perdido no tempo e na efetividade. “…você tá andando, menina!”, gritou estridente e feliz, os olhos se encheram de lágrimas e ela abraçou a garota pela cintura, seu rosto colado ao dela e sua face se contorcendo em uma careta parecida com a de um torcedor entusiasmado. “Eu sabia, eu sabia!”, gritou e em seguida louvou a todos os santos que conhecia.


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